lembrança
abril 6th, 2012 § Deixe um comentário
o menino correu e grudou na barra da saia da vó. a negra estava lavando roupas no tanque do quintal e mandou o garoto magricela botar o chinelo. ele saiu correndo com as pernas fininhas para dentro de casa. na verdade, apenas estava com medo da solidão.
sentou na porta, numa escadinha, e observou. ela enxugou as mãos na camiseta branca e foi estender algumas peças no varal. naquele dia ensolarado, pegou uma bacia vermelha com algumas calças e blusas pequeninas e com desembaraço pendurou todas. na saia deixou alguns prendedores para facilitar o trabalho.
o sol batia nos cabelos crespos e brancos. a pele preta estava suada e acentuava as rugas da velhice. olhava pra cima, como se estivesse fazendo uma prece ao deus que tanto acreditava, e os olhinhos se apertavam com os raios do meio dia.
os pés estavam rachados, como se tivessem caminhado por muitas estradas com o chão duro. as mãos não eram delicadas como a das mocinhas que moravam na rua ao lado. as canelas finas sustentavam muitas memórias.
o menino contemplava a negra pendurando roupas no varal. os dedos enrugados, a boca fina, os olhos cor de mel. de vez em quando, ela parava de cuidar das tarefas e fitava o pequeno observador. às vezes tinha um olhar tão triste que dava vontade de abraçar…
depois de molhar as mãos e brincar com a água, a negra gostava de sentar numa cadeira e chupar algumas laranjas. o menino sabia disso e tudo era sempre igual. ela descascava uma grande vasilha cheia delas e ficava olhando o jardim. o sol sorria e os passarinhos cantavam em volta. dava uma paz.
então, o menino sentava no chão, bem pertinho dela, e ficava fazendo perguntas sobre a vida.
as respostas da negra eram de alguém que experimentou a dor da rejeição, mas que plantou fé num futuro onde nenhuma lágrima existirá. ficavam ali, juntinhos, às vezes em silêncio, apenas ouvindo o som da familiariedade que ecoava no silêncio.
quando o ventinho frio do entardecer chegava, ela preparava pão com manteiga. deixava ficar bem quentinho e o cheiro dançava por toda a casa. sentavam juntos mais uma vez e se fitavam. às vezes ela tinha um olhar tão amoroso que dava vontade de chorar…
depois do banho, gostavam de deitar juntos. achava engraçado que o menino deitava como ela: com os braços dobrados embaixo da cabeça e os joelhos encolhidinhos, como se estivesse procurando aconchego.
ouviam alguns discursos no rádio e o menino continuava a contemplar a negra. vestindo uma camisolinha branca com florzinhas, ela pegava os óculos para ler algumas palavras de esperança num livro de capa escura. os lábios se moviam devagarinho enquanto lia. de vez em quando, olhava para o nada, pensando nas frases que acabara de dar vida.
enrolado num cobertor de retalhos, o garoto sentiu muito amor.
não sabia, mas assim que gostava da vida.
naquela época, pensava como seria seu futuro como desbravador de um mundo desconhecido. veria além dos varais, ouviria mais do que o canto dos passarinhos, comeria mais do que pão com manteiga.
pobre menino, não sabia que depois de conhecer reinos distantes apenas ia querer voltar pra juntinho da negra, onde sentia o cheiro das laranjas e recebia o carinho de alguém que muito o amou.
à noite, ele choraria de saudades.
“A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam”. Rubem Alves